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Foto: Frederico Canequela
Auditório lotado na palestra sobre Era Hugo Chávez
Inest discute aspectos políticos sobre continuidade e ruptura na Venezuela Pós-Chavez
14/3/2013

O Instituto de Estudos Estratégicos (Inest) da UFF realizou na manhã desta quarta-feira, 13 de março, o debate “Venezuela Pós-Chávez: Continuidade ou Ruptura?” no Auditório Florestan Fernandes. Com o local lotado e plateia atenta, o professor da UFRJ Leonardo Valente começou afirmando que o mandato presidencial de Hugo Chávez iniciado em 1999 marcou uma virada de rumos na democracia venezuelana.

De acordo com Valente, antes de Chávez, a Venezuela passou quatro décadas dominada por um bipartidarismo de centro em que havia duas forças políticas se alternando no poder, a Acción Democrática (AD) e o Comité de Organización Política Electoral Independiente (Copei). Ambos os partidos alcançaram o poder por meio do golpe de estado em 1958. Havia um acordo de que o partido vencedor das eleições deveria indicar nomes do partido perdedor para compor cargos no governo. Isso dificultava a ascensão de outras forças políticas ao poder.

Era um momento de grande crescimento econômico, havia muita entrada de dinheiro devido à indústria petrolífera, mas também uma forte repressão a forças políticas de esquerda, mais do que em muitos governos militares da época na América do Sul. Foi implantada uma política nacionalista e realizados acordos energéticos a respeito do petróleo com outros países da América do Sul, além da tentativa de implantar projetos de integração. Havia a ambição de projetar a influência venezuelana na América Central e no Caribe, o que contrariou os interesses norte-americanos na época.

Entretanto, segundo Felipe Valente, o progresso econômico não veio acompanhado de distribuição de renda e de tentativa de diminuição das diferenças entre as classes sociais na sociedade venezuelana. Não havia nenhum tipo de assistência social às classes menos favorecidas. Para piorar, a diferença econômica entre as classes evidenciava também a desigualdade racial, com a elite europeia progredindo, e os mais pobres, de origem mestiça de negros, índios e europeus, ficando ainda mais pobres.

No início dos anos de 1980, estourou uma crise internacional que respingou na Venezuela e desequilibrou a economia, provocando recessão, aumento no desemprego e a quebra das instituições financeiras. A crise enfraqueceu a aliança política bipartidária que já durava 40 anos. Em 1992, Hugo Chávez viu sua primeira chance de chegar ao poder e fez uma tentativa de golpe de estado contra o presidente Carlos Andrés Pérez. Fracassou, foi preso e cumpriu pena por dois anos, sendo, então, anistiado por Rafael Caldera, que pretendia fortalecer seu poder por meio de uma aliança com a esquerda.

Felipe Valente explicou que, em 1998, Chávez percebeu a possibilidade de chegar ao poder por via eleitoral. Apoiado por uma coligação com direcionamento de esquerda e centro-esquerda venceu as eleições e assumiu a presidência da Venezuela em 1999. O novo presidente adotou o revisionismo na política externa, reviu o alinhamento com os Estados Unidos pós-Guerra Fria e implantou uma rede de programas assistencialistas à população mais pobre, a fim de incluir esta população no mercado de consumo e propiciar mais qualidade de vida a ela.

O professor Valente terminou sua explanação afirmando que o governo Chávez conseguiu reduzir a pobreza na Venezuela em 20% e somente chegou ao poder devido às duas décadas de deterioração das questões sociais e econômicas no país. A gestão de Chávez modificou consideravelmente a vida das pessoas das classes mais baixas na Venezuela e, por isso, as camadas populares aderiram totalmente e deram apoio incondicional ao governo chavista.

Em seguida, falou o professor emérito da UFF Theotônio dos Santos, que enfatizou ser o grande problema da Venezuela o fato de o país não ter instituições. Entretanto, o especialista destacou que é muito forte a presença dos conselhos comunitários, havendo cerca de seis mil espalhados por todo o país, estando estruturados por bairro e com a participação de indivíduos de toda a comunidade da qual fazem parte.

Theotônio dos Santos ressaltou que o processo participativo nos conselhos comunitários faz com que as pessoas da comunidade sintam-se realmente envolvidas nas decisões e responsáveis pelas mudanças. Todas as comunidades têm biblioteca pública e clínicas médicas com fácil acesso a todos. Ainda de acordo com o professor, caso o próximo governo queira modificar a estrutura atual será necessário um golpe de estado.

Após a fala do professor Theotônio, foi aberto um espaço para as perguntas da plateia. Estavam também, dentre os especialistas convidados para o debate, o professor Fidel Flores, do Observatório Político Sul-Americano e do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj; e o professor Fernando Roberto de Freitas Almeida, do Inest, que atuou como mediador.

UFF Notícias - Superintendência de Comunicação Social (SCS)