Fotos: Bianca Rangel
Alan Gripp, secretário de redação da Folha, ressaltou os prós e contras do jornalismo investigativo
Elvira Lobato ex-repórter da Folha, afirmou no evento que o repórter investigativo tem que ser curioso e não pode se contentar com a primeira resposta
Francisco Regueira, repórter investigativo do Fantástico, explicou a busca pelo flagrante na televisão
Auditório lotado e público atento marcaram o primeiro dia do Controversas e foram lembrados pela coordenadora Larissa Morais
‘Controversas’ reúne público de 135 pessoas e tem início com discussão em torno do tema Jornalismo Investigativo
5/3/2013
O “Controversas”, evento promovido pelo curso de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense, teve início na tarde de ontem com a mesa “Jornalismo Investigativo”, mediada pelo professor Márcio Castilho. Para falar sobre o tema, participaram o secretário de redação da Folha de São Paulo, Alan Gripp, a ex-repórter especial da Folha, Elvira Lobato e o repórter investigativo do Fantástico Francisco Regueira. Ao todo, 135 pessoas compareceram ontem ao evento que este ano chega a sua 5ª edição e está sendo realizado no Auditório Macunaíma, no Bloco B, do Campus do Gragoatá.
O primeiro palestrante, Alan Gripp, ressaltou a importância do jornalismo investigativo e citou os pontos positivos e negativos da profissão: “Esse é o jornalismo de cada vez mais interesse das empresas. Esse jornalista investigativo é cada vez mais valorizado e é muito bem remunerado. Ele faz a diferença no produto e por isso, ganha mais, tem mais espaço, reconhecimento e disputa prêmios. O que dificulta na formação é que dá trabalho, é difícil e a gente tem que se especializar cada vez mais para ser um jornalista investigativo”.
Depois de ressaltar que o mercado de jornalismo daqui a dez anos tende a ser diferente do de hoje e cada vez mais acirrado, Gripp afirmou a necessidade do preparo da nova geração, com conhecimentos de direito e de ferramentas tecnológicas, por exemplo, para uma competição de igual para igual no futuro. O jornalista ponderou, no entanto, que não se pode perder o espírito da profissão “Percebo o vício da reportagem por trás do computador. Vocês têm de estar tecnologicamente bem preparados, mas não podem nunca perder o que a gente chama do senso de jornalismo de rua”, aconselhou.
Elvira Lobato também falou sobre a relação que deve ser estabelecida com a tecnologia e lembrou do tempo em que o jornalista não tinha tantos meios para apurar uma matéria: “Eu fui repórter por 39 anos e quando eu comecei a fazer o tal jornalismo investigativo, não existia internet, telefone celular. E hoje jovens repórteres pensam que não é possível fazer um jornalismo sem isso, mas a gente fazia. Então a tecnologia facilitou muito o jornalismo, mas ela é apenas um instrumento”, disse.
Elvira falou também sobre quem é o repórter investigativo: “Acho que ser repórter investigativo não é uma escolha, é algo que nasce com você. O repórter investigativo tem uma curiosidade e uma insatisfação maior do que a média dos outros. É aquele que não confia e não se conforma com a primeira explicação. Além da curiosidade, que é essencial, o repórter tem que buscar também um método de trabalho para cada matéria. Porque não tem uma fórmula única de como investigar uma empresa privada ou de como investigar o setor público. Mas em todos os casos é preciso ter um domínio técnico do assunto que você está tratando”, destacou. A repórter falou ainda sobre um dos dilemas da área: ir ou não atrás de uma informação que é recebida, já que afinal, ela pode ser apenas resultado do interesse de uma fonte. Mas, para Elvira, é preciso sempre correr atrás da informação, investigá-la, por mais que de cada dez ideias de pauta apenas duas se transformem verdadeiramente em matérias.
Já Francisco Regueira falou um pouco da atuação do repórter investigativo na televisão e destacou uma das principais diferenças entre os dois meios. “O meu veículo é audiovisual, então o que no jornal impresso seria o fim da reportagem, no meu caso é o trabalho de apuração, do cruzamento de dados, de planilhas e checagem de documentos, porque é a prova. Esse material geralmente não vai ao ar”. Francisco pontuou também as dificuldades da investigação para o meio audiovisual: “O que se busca é o flagrante. A minha reportagem, não acusa, por exemplo, alguém de fazer algo. A grande dificuldade é como mostrar. Porque a minha prova é a imagem e o som. Para buscar esse flagrante é preciso o método da imersão na realidade; é preciso conviver e entrar naquele mundo para identificar onde você vai atuar e quem deverá ser documentado para a produção da reportagem. A busca pelo flagrante, assim, requer tempo e sola de sapato. O trabalho é 90% na rua e é um tanto ingrato porque o seu prazo de volta depois de uma reportagem pode ser de uma semana, mas também de dois ou três meses”.
Depois da fala de cada convidado, ocorreu um debate cujo tema era o uso de câmeras escondidas e a atitude do repórter de dizer ser quem não é, para conseguir uma informação. Os palestrantes chegaram ao consenso de que é viável usar essas estratégias quando o tema tem relevância, interesse público e não há outros meios de conseguir a imagem ou os dados para a reportagem.
Nesse primeiro dia, também houve uma segunda palestra com mesa sobre Grandes Eventos, e ocorreram sorteios de livros. Ao final do evento, a coordenadora do Controversas, Larissa Morais fez um balanço sobre o primeiro dia: “Eu estou super feliz porque veio uma grande quantidade de alunos e o auditório que está com cadeiras extras ficou cheio. Os alunos também perguntaram até o último momento. Então, foram debates interessantes, acalorados, com aplausos no meio das falas que são indícios de que o público estava envolvido. Espero que a gente mantenha esse quórum bom até o último dia”.
O Controversas vai até o dia 6 de março e conta sempre com a discussão em torno de dois temas: o primeiro das 16h às 18h30 e o segundo das 19h às 21h.