Reitor da UFF envia documento a ministro da Educação sobre divulgação do ‘ranking’ das universidades brasileiras
22/9/2009
O reitor da UFF, professor Roberto Salles, enviou carta ao ministro da Educação, Fernando Haddad – com cópia para a Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Secretaria de Educação Superior (Sesu) e reitores das universidades federais –, em que comenta sobre o “ranking” das universidades brasileiras, cuja segunda edição foi divulgada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (Inep).
No documento, o reitor afirma que a eficácia de uma avaliação não reside apenas na forma como ela é feita, mas também em como os seus resultados são divulgados. Roberto Salles sugere ainda que, antes de divulgadas as classificações, critérios mais objetivos de avaliação sejam definidos juntamente com as associações de reitores e as associações acadêmicas e científicas.
Abaixo, veja a íntegra do documento.
“Senhor Ministro,
Em nome da Universidade Federal Fluminense, gostaria de fazer alguns comentários a respeito da segunda edição do “ranking” divulgado pelo Inep à imprensa. Considerando a importância da avaliação de cursos e instituições, até mesmo por seu papel definidor na trajetória das universidades no cenário acadêmico nacional, não podemos nos furtar a contribuir com o aperfeiçoamento dos métodos de avaliação.
Sabemos que para a avaliação dos cursos de pós-graduação, o Índice
Geral de Cursos (IGC) considera os dados do Sistema Nacional de
Avaliação de Pós-Graduação (SNPG), sob a responsabilidade da Capes.
Este sistema, que tem o propósito de ser um indicador de qualidade de
instituições do ensino superior (IES), abrange os mais diversos
parâmetros, como a proposta de curso, a composição do corpo docente e
sua atuação em atividades de ensino e pesquisa, a estrutura
curricular, a capacidade de captação de recursos, o tempo para
formação de estudantes e a produção científica. De fato, desde a sua
implantação, em 1976, o SNPG vem cumprindo papel fundamental para o
desenvolvimento da pós-graduação e da pesquisa científica e
tecnológica no Brasil, possibilitando atingir objetivos fundamentais
como o estabelecimento de um padrão de qualidade exigido aos cursos de
mestrado e de doutorado.
No que se refere aos cursos de graduação, o IGC estabelece faixas
crescentes de qualidade, variando de 1 a 5. Esse procedimento está
centrado no Conceito Preliminar de Curso (CPC) que reúne dados do
Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), do Índice de
Diferença entre os Desempenhos Desejado e Esperado (IDD) e das
respostas dadas pelos estudantes ao questionário deste exame.
Contrariamente ao SNPG, o CPC extrapola aspectos que dependem das
ações das IES para a melhoria da formação dos graduandos, uma vez que
resulta, predominantemente, do estudante, que, com suas respostas,
contribui com 82% da composição do CPC. Ao se basear no Enade e em
outros aspectos que dependem eminentemente da atuação direta e
voluntária de estudantes, o IGC dificilmente expressará a qualidade
dos cursos de graduação de uma IES, por não considerar as ações
pedagógicas que ela possa empreender.
Dado que o objetivo principal é avaliar como uma IES está formando um
profissional, entendemos que o acompanhamento de egressos, por
exemplo, poderia revelar de forma muito mais objetiva e real a
qualidade dos cursos oferecidos pela IES, aspecto este que o Enade não
contempla. Além do mais, do modo como vem sendo implementado, o método
de avaliação não distingue se houve ou não participação maior ou menor
dos estudantes em uma ou mais etapas. Acrescenta-se ainda o fato de
que análises provenientes de um questionário são insuficientes para
avaliar atitudes profissionais.
Além disso, avaliar de forma equivalente universidades com poucos ou
muitos cursos cria uma outra distorção. Sabemos que qualquer método de
avaliação global não se propõe a refletir sobre as especificidades
inerentes a cada elemento de uma amostragem analisada. No entanto, não
se pode, em nome disso, descartar por completo certas diferenças que
venham a influenciar diretamente nos resultados da avaliação. No caso
de um sistema extremamente heterogêneo, como o que reúne todas as
instituições de ensino superior brasileiras, certamente alguns ajustes
se fazem necessários para contemplar e, até mesmo, valorizar tais
diferenças.
Por fim, não podemos deixar de mencionar que a eficácia de uma
avaliação não reside apenas na forma como ela é feita, mas também em
como os seus resultados são divulgados. Não se faz clara a razão pela
qual o CPC, um componente preliminar, seja utilizado de forma
absoluta para classificar IES, por meio do IGC. A classificação das
IES, gerada com base no IGC, tem sido amplamente divulgada pela
imprensa como aspecto absoluto e não como um processo em curso, o que
naturalmente induz a conclusões, por vezes, equivocadas.
Entendemos que o processo como um todo ganharia sobremaneira em
impacto e respeitabilidade se, antes de divulgadas as classificações,
critérios mais objetivos de avaliação fossem definidos juntamente com
as associações de reitores e as associações acadêmicas e científicas.”
Atenciosamente,
Roberto de Souza Salles
Reitor
Universidade Federal Fluminense