Entrevista: Mauro Romero
junho/2004
Mauro Romero, professor do Departamento de Microbiologia e Parasitologia
e coordenador do setor de DST da UFF, fala sobre o 4º Simpósio
Internacional de Infectologia em Ginecologia e Obstetrícia
(Infectogin 2004), que será realizado de 2 a 5 de junho, em
Niterói.
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Entrevista concedida a Carolina Bittencourt
Por que realizar um simpósio internacional?
A idéia era discutir as questões infecciosas na ginecologia
e obstetrícia, sempre trazendo um convidado internacional.
A importância desse tipo de evento é a troca de experiências
entre os profissionais de saúde que lidam com as doenças
sexualmente transmissíveis (DST). Foi por meio da Sociedade
de Ginecologia do Estado do Rio de Janeiro que dei início ao
primeiro simpósio. Hoje, em sua quarta edição,
conseguimos trazer o evento para Niterói.
E por que a cidade de Niterói foi escolhida para sediar
um evento internacional?
Já fiz alguns outros eventos na cidade e acho que tem boa estrutura.
Como esse simpósio sempre ocorreu no Rio de Janeiro, organizado
pela Sociedade Estadual, neste ano, achei interessante fazê-lo
em Niterói. Sendo eu presidente da Sociedade de Ginecologia
em Niterói e São Gonçalo, pensei na promoção
que a cidade teria com a vinda de um evento desse porte. E a Associação
Médica Fluminense foi de fundamental importância, porque
prontamente nos ofereceu sua sede em Icaraí, apoiando a organização
deste 4º Infectogin 2004.
Além dessa mudança, há outras novidades
para esta edição?
Nós, da Sociedade Estadual, estamos organizando este 4º
Infectogin em conjunto com outras sociedades: A Sociedade Brasileira
de DST do Rio de Janeiro, o Setor de DST da UFF, a Sociedade de Ginecologia
e Obstetrícia do Rio de Janeiro (Niterói e São
Gonçalo) e a Associação Latino-Americana e Caribenha
para Controle das DST. Mas a novidade é que estamos juntando
neste simpósio a reunião da Comissão Científica
Geral do Congresso Brasileiro e a fundação da Associação
Latino-Americana e Caribenha para Controle das DST.
Como assim?
Havia sido marcada uma reunião, em Niterói, da Comissão
Científica Geral do Congresso Brasileiro de DST e Aids que
vai acontecer em setembro, no Recife. E, somando-se a isso, um grupo
de médicos e profissionais brasileiros e latino-americanos
resolveu fundar a Associação Latino-Americano e Caribenha
para Controle das DST. Então, aproveitei este evento internacional
para juntar tudo. Apoiando-nos, estão a Unimed/Usimed e o Ministério
da Saúde por meio do Programa de DST e Aids. O resultado disso
foi um evento de vulto maior. Especialistas latinos-americanos estão
chegando de vários países: Cuba, Colômbia, Peru,
Argentina, Chile, Bolívia. Como muito deles trabalham com as
DST, que estão muito ligadas às infecções
genitais da mulher, caiu como uma luva essa idéia.
Quais serão os trabalhos que o senhor vai apresentar
no evento?
Vou fazer três apresentações. Uma delas será
um debate onde defendo a importância de se examinar o homem
cuja parceira tem HPV. Quando falo em examinar o parceiro, não
é só examinar o pênis, mas fazer uma consulta
onde se possa verificar outras doenças. Nesse debate vou apresentar
dados de mais de 20 anos de trabalho. Na outra discussão, defendo
que, nesse momento, a mulher HIV infectada, grávida, se possível,
faça a cesariana eletiva programada, porque dá maior
conforto para ela e para a equipe. Dessa forma, há controle
dos riscos, porque a cesariana programada evita que a mulher entre
em trabalho de parto.
Por que isso?
No parto normal, o feto pode entrar mais em contato com o sangue.
Mas a cesariana também pode ter uma contaminação
grande. Só que os trabalhos mostram que o risco está
atrelado à quantidade de vírus que essa mulher tem.
O avanço da utilização do remédio antirretroviral
pelas mulheres HIV infectadas diminuiu muito esse percentual, mas
ele ainda existe. A medicina, por evidência, tem mostrado que
a mulher com carga viral baixa ou indetectável pode ter um
parto normal tranqüilo. Só que a gente sabe das dificuldades
gerais, e eu não vou pegar só o fato isolado da técnica,
mas vou colocar essa mulher num contexto nacional, no contexto das
maternidades. O parto, muitas vezes, pode começar absolutamente
normal e no final complicar. Essa complicação, com a
mulher HIV infectada, pode resultar na perda do beneficio de um filho
saudável. Sabemos que o risco maior de contaminação
do feto está no período entre 34 semanas e o parto e
na amamentação. Como não há dados que
comprovem o risco de contaminação pela secreção
vaginal na hora do parto, farei o que puder para diminuir os meios
de contágio. Faço o discurso de que a medicina deve
ter bom senso.
Bom senso?
A medicina não deve ficar baseada só em evidência,
a coisa científica. É preciso pensar também no
contexto geral. Bom senso, para mim, significa medicina baseada em
inteligência. Hoje, está se discutindo a lei da responsabilidade
social. Mas veja a situação do poder público:
o município pode estar querendo construir uma maternidade,
contratar alguém, e não pode, porque existe limite de
verba. Este limite pode impedir o avanço social. É claro
que isso, às vezes, impede os abusos. É bom que tenha
isso, porque dá limite para o prefeito não gastar tudo
com o funcionalismo, mas é perverso, porque ele precisa avançar,
ter mais médicos e não pode.
E qual seria seu último trabalho?
Este trabalho que eu vou mostrar é sobre a sífilis.
Eu coordenei um projeto de estudo multicêntrico - isto é,
em vários centros - que foi realizado em Niterói, Manaus,
Fotaleza, Santos e Natal, todos coordenados por nós, aqui,
da UFF. Financiado por um laboratório particular e aprovado
pelo comitê de ética nacional, o Conep, o trabalho testou
uma droga chamada azitromicina.
Qual foi o objetivo desse projeto?
A gente comparou a azitromicina com a penicilina. A penicilina é
tida como "padrão ouro", o melhor tratamento para
a sífilis. O mundo todo sabe disso. Então, nós,
que já estávamos fazendo esse estudo desde 1993/94,
começamos a perceber que essa droga era promissora. Há
trabalhos americanos, ingleses, canadenses mostrando. Mas esse estudo
foi singular, porque nós comparamos dois esquemas (oral e injeção
muscular) de tratamento de penicilina contra dois esquemas de tratamento
com azitromicina. É chamado estudo de equivalência. Comparamos
nossos resultados e concluímos que azitromicina é equivalente
à penicilina no tratamento da sífilis. Foi um estudo
ímpar no mundo, com o maior número de pacientes controlados.
E quais foram os resultados?
Primeiro, nosso trabalho tem uma singularidade: ele foi multicêntrico,
comparativo e randomizado. Neste último, eu, como médico,
não decido quem toma cada droga. O paciente, quando entra no
estudo, recebe um número de controle aleatório que corresponde
à droga que ele irá utilizar. Isso é importante
citar, porque essa é uma metodologia atual de comparação
de drogas, onde provamos que a azitromicina é uma alternativa
à penicilina e que seu tratamento pode ser feito por via oral,
uma vantagem em relação às injeções.
Isso mostra, principalmente, que a UFF pode estar fazendo pesquisas
boas, de ponta e inéditas para o mundo. No 4º Simpósio
Internacional de Infectologia em Ginecologia e Obstetrícia,
proponho não só reunir os colegas e atualizar temas,
mas também mostrar que a sífilis é uma doença
grave ainda, mesmo sendo milenar e curável - até por
remédio via oral.
Qual o apoio da UFF neste evento?
Ao meu ver, o apoio é logístico, uma vez que ela me
dá toda a infra-estrutura para eu desenvolver meus estudos
e projetos. Esse tipo de financiamento não aparece, é
um investimento pingado. O reitor se comprometeu a abrir o evento,
o que é um marco importante. Recebo cobertura do Núcleo
de Comunicação Social da universidade. O Jornal Brasileiro
de DST, que será distribuído na ocasião, recebe
apoio da UFF. Ele existe há 16 anos e é o único
periódico científico indexado no Brasil sobre o DST.
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